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3 de julho de 2020

O Evangelista da API Economy | The Shift

Creators Editorial
Sensedia in-house editorial
CREATORS: Uma mente coletiva de Sensediers em busca de um mundo mais conectado, aberto e informado.
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Esta é uma entrevista que nosso CEO Kléber Bacili deu para The Shift Newsletter.

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Por muitos anos, o pensamento de Kleber Bacili no mercado de TI levou à figura de evangelista. O cara das API (Application Programming Interfaces). Um assunto que, pouco a pouco, com os negócios se tornando cada vez mais digitais, deixou os guetos técnicos para ganhar valor econômico.

O fundador e CEO da Sensedia, um graduado da Unicamp Engenharia Informática, especialista em Empreendedorismo pela Insper e Inovação pela Universidade de Stanford, logo percebeu que a revolução data-driven e a onda “Open” permitiriam correlações surpreendentes entre negócios.

Hoje, as APIs criadas e gerenciadas por este scale-up, participante do programa de aceleração da Algar Ventures em parceria com a Endeavor, estão em uma grande variedade de serviços omnichannel (adaptáveis a qualquer dispositivo), que são elásticos (aproveitando o potencial da nuvem), contextuais e cada vez mais intuitivos, como o recentemente anunciado WhatsApp Pay, através da Cielo.

Orgulhoso de ver a empresa que ele lidera posicionada como Visionária no Quadrante Mágico do Gartner para Full Lifecycle API Management, e como Strong Performers e Líderes em duas diferentes “Waves” da Forrester, Kleber está se preparando para intensificar o processo de internacionalização, aportando em mais países da América Latina e Europa.Nesta conversa, ele fala sobre as transformações e evoluções que continuam a impulsionar a economia digital, a chegada do Open Banking e os pagamentos digitais no Brasil, e a importância das APIs para as estratégias de construção de plataformas e ecossistemas que permitem a transformação digital.

Disrupção é...

Bem, temos a definição conceitual de Clayton Christensen, com a qual tive o privilégio de ter aulas em 2003, que é quando uma empresa pode criar uma tecnologia ou um modelo de negócios que muda radicalmente a dinâmica de um determinado mercado. Mas temos usado mais comumente, para nos referirmos a uma inovação que, ao contrário de uma inovação incremental, promove uma mudança radical que desloca players consolidados.

Nós nos consideramos um scale-up. Nascemos em 2007 como um spin-off da CI&T, já focada na arquitetura. Na época, SOA [Service Oriented Architecture] era a palavra de tendência quando se pensava em integração. Em 2013, nós nos movemos para API Management, após termos feito o primeiro projeto de consultoria para a Cnova, na montagem do mercado que operava com a bandeira Extra. Desde 2013 adotamos o conceito da API First e construímos nossa plataforma API Management , que hoje é o ar que respiramos.

Afinal de contas, fomos pioneiros. Naquela época, já estávamos ouvindo falar das APIs do Facebook e outras mídias sociais, que ajudaram a popularizar o conceito. Mas era um nicho de mercado. A TI corporativa ainda não havia tentado usá-la. Os marketplaces eram a vanguarda, expondo suas APIs para que os revendedores pudessem fazer suas vendas.

Hoje as APIs estão em qualquer organização que tenha o mínimo de investimento digital, seja conectando produtos internos, seja permitindo que a empresa se conecte a serviços de nuvem, ou se posicione como uma plataforma digital.

O mercado amadureceu rapidamente. Nos últimos anos, temos ajudado muitas empresas a estarem mais conectadas, digitais e abertas através do gerenciamento de APIs abertas ou privadas. Como a própria história da Sensedia mostra, as relações de mercado são cada vez mais mútuas, colaborativas e em rede.

Em 2017, começamos nossa jornada de internacionalização. Em 2018, começamos nossas operações no Peru e na Colômbia, depois no México e, desde o ano passado, em Londres. A COVID atrapalhou, pois sempre nos utilizamos muito de eventos presenciais para prospectar clientes e tivemos que nos adaptar rapidamente à mídia digital, promovendo webinars e outros eventos online para gerar negócios. Mas estamos fazendo progressos, com um pipeline de oportunidades consistente.

Devemos terminar 2020 com um faturamento próximo a R$ 90 milhões. Isto significa que já passamos da fase de estouro. Conseguimos provar o modelo de negócios, a assinatura da plataforma e a prestação de serviços, o que foi o primeiro desafio. E também fomos capazes de provar o motor de crescimento. Temos crescido mais de 60% ao ano de forma consistente desde 2013.

Brincamos que é muito difícil explicar aos nossos pais o que a Sensedia faz. Uma cola digital que conecta aplicações e sistemas de grandes empresas. Mas quando contamos os clientes com os quais trabalhamos e as experiências digitais que ajudamos a permitir, começa a ficar um pouco mais claro.

O pagamento via WhatsApp a partir da Cielo teve uma participação fundamental da Sensedia. Fomos um dos principais parceiros da Cielo no desenvolvimento da solução. Eles usam a nossa plataforma e ajudamos a desenhar os microsserviços e as APIs que a suportam.

A Sensedia também está por trás das estratégias digitais de alguns dos principais bancos do país: Topázio, Tribanco, Original, Neon, Paraná, Bari, etc. E agora, pensando em criar um ambiente mais competitivo, o Banco Central (BC) começou a regular Open Banking, que começa a operar este ano, permitindo a criação de novos negócios e ecossistemas digitais através de APIs disponibilizadas pelos bancos.

Uma característica dos APIs nos negócios é a de abrir novas oportunidades de receita. Impulsionar a inovação. Natura, SulAmérica, McDonald's, Localiza, Netshoes, Panvel, Raízen, Porto Seguro e PagSeguro são algumas das empresas que impulsionaram seus modelos de negócios e aumentaram suas propostas de valor, investindo em uma estratégia de negócios baseada em plataformas e integração via APIs. Hoje temos mais de 100 grandes empresas que utilizam nossos serviços.

Expor APIs é uma maneira de tornar mais prática a possibilidade de inovação aberta. Uma estratégia API First é a forma como negócios são feitos hoje em dia.

O cenário tecnológico também evoluiu muito. Desde as primeiras APIs feitas para marketplaces até o conceito que temos hoje, vimos várias forças surgindo que de alguma forma favoreceram o uso de APIs, tais como nuvens multi-nuvem e híbridas, que abordam agilidade e escalabilidade, além do surgimento do Microsserviços.

O que temos visto muito é a decomposição dos monólitos. O uso de projetos digitais para a decomposição do legado, levando o recém-criado para a nuvem, construído com uma arquitetura mais moderna. Um business case para a reconstrução total do legado é muito difícil de defender hoje. Se você tem um certo serviço que encapsula bem uma certa lógica de negócio, você pode reutilizar essa lógica empresarial em outras situações, em outros produtos, de uma maneira muito mais transparente e rápida.

Uma das nossas primeiras propagandas falava de componentes de software e tinha a imagem de um bloco de Lego. A gente já vendia a ideia de ter módulos plugáveis.

A diferença é que, naquela época, a reutilização era para fazer uma cópia do componente e usá-lo em outro lugar. Hoje, no mundo das APIs, este componente já está funcionando em algum lugar. Isto simplifica muito a reutilização. Você só precisa conhecer a interface de uma determinada API para começar a usá-la. O ganho é muito mais evidente.Mesmo com a COVID, temos visto vários clientes de mercados que foram muito impactados, como o varejo físico, usando APIs em nossa plataforma para possibilitar novos canais digitais.

Notamos um aumento de 20% no consumo de APIs durante este período pandêmico.

Grande parte desse movimento deve continuar quando o período de isolamento tiver terminado. Teletrabalho e Telemedicina são tendências que vieram para ficar. Muitas pessoas se acostumaram a comprar online durante esse período. As pessoas também se acostumaram a usar mais os canais digitais dos bancos. Mesmo aqueles segmentos que terão mais receita através dos canais físicos quando as pessoas puderem circular novamente, continuarão a manter os canais digitais construídos agora. O mix online e offline se tornará cada vez mais entrelaçado.

Isto provavelmente influenciará muito o roadmap por oferecer soluções que envolvem muita orquestração de APIs existentes na nuvem em geral.

O estouro do Microsserviços e toda a modernização do legado traz grande complexidade em termos de garantir operações consistentes e confiáveis. Desta forma, toda a parte Mesh Architecture torna-se também uma parte importante, pois a governança dos APIs se torna relevante.

Começamos ajudando as empresas a exporem suas APIs. A tendência é ajudar as empresas a consumir mais APIs.

Na época da SOA, as empresas começaram a construir muitos webservices. Isto forçou a adoção de uma governança que, a certa altura, se tornou muito pesada. Tornou-se muito processual, muito formal. Isso obrigou as equipes de desenvolvimento a buscar a aprovação da equipe de arquitetura para construir qualquer coisa.Quando as empresas começaram a usar APIs, elas começaram a pensar que toda essa governança era desnecessária. Todos começaram a fazer suas APIs da maneira que queriam, porque tudo o que importava era ser ágil. Agora estamos vendo o pêndulo voltando novamente.

Você não pode ter cada linha de negócios de sua empresa criando diferentes APIs, ou duplicatas. Ou criar serviços inconsistentes do ponto de vista das regras de negócio

Portanto, as empresas estão sentindo a necessidade de ter um pouco mais de governança sobre como seu ecossistema de APIs que está sendo construído. É uma governança muito mais ágil do que a governança SOA, com etapas de aprovação mais automatizadas, chamada de Governança Adaptativa. Dentro de nosso ideal customer profile , o CIO é a principal persona. Mas também falamos com a pessoa responsável pelos canais digitais, que pode ou não ser da área de TI. Também com o Diretor de Inovação. Eles são nossos principais interlocutores hoje.

Em algumas verticais, como varejo e bancos, já falamos diretamente com as áreas de negócios. Mas a maioria de nossos interlocutores são técnicos.

Hoje, as empresas precisam se preparar para algo que ainda não conhecem muito bem. As arquiteturas precisarão estar preparadas para o inesperado. Já estamos passando por algumas experiências nesse sentido. Alguns de nossos clientes, como Cielo e Elo, são parceiros da Caixa no pagamento de apoio emergencial, para ajudar a levar os recursos para as pessoas que mais necessitam deles. Estamos ajudando estas empresas a passar da validação de 20 transações por segundo para 15.000 transações por segundo.

Esta é uma ordem totalmente nova de volume de tráfego que as empresas tiveram que absorver de uma semana para a outra. Se sua arquitetura não tem um alto nível de flexibilidade, você não pode se adaptar ao inesperado.

O Gartner fala muito sobre a Multiexperience. "Espaços inteligentes centrados nas pessoas". Além do do mobile e da Internet, estamos nos encaminhando para um mundo de múltiplas interações, via chatbot, Realidade Aumentada, Realidade Virtual, Inteligência Artificial propriamente dita, assistentes de voz. Várias frentes que as empresas terão que utilizar sem saber exatamente o que prevalecerá a médio prazo. E esta possibilidade de promover estas diferentes experiências envolve ter uma arquitetura flexível, ágil e resiliente, que as APIs fornecem.

As empresas costumavam pensar em um ecossistema e, dentro de outra caixa, nas experiências fornecidas pela própria empresa em seus próprios canais digitais. Agora os ecossistemas são mais mistos. A competição se torna entre ecossistemas inteiros de viagens e interações com o consumidor na ponta.

Um dos termos que o Gartner usa para definir isso é Frenemies. As empresas precisarão pensar no papel que desempenharão e no valor potencial que os ecossistemas que criarão. Não é possível evitar a participação em diferentes ecossistemas. Elas terão que administrar muitas relações Frenemies. Algumas vezes como amigos e parceiros, outras como inimigos e concorrentes.

Em pagamento, por exemplo, já existe uma corrida dos varejistas para oferecer carteiras digitais e serviços financeiros a um grande volume de consumidores que já interagem com os varejistas e são pouco atendidos pelo sistema financeiro tradicional. Eles estão procurando maneiras de preencher esta lacuna. E as viagens criadas geram muitas interconexões. Há muitas mudanças a caminho.

Pense em enviar dinheiro como enviar uma mensagem, por exemplo. Esta experiência fluida e sem atritos não é de forma alguma desprezível. O nível de facilidade de adoção é algo muito poderoso. Portanto, hoje não precisamos mais convencer as empresas a adotar uma estratégia API. A maioria delas não nega mais a importância do modelo. Mas se eu tivesse que fazer isso eu diria que, no fim das contas, é uma forma dela ser capaz de se posicionar como be digital e deixar a idéia de go digital para trás.

A empresa que quer ser digital precisa pensar em seus produtos como uma plataforma digital. E não há plataforma digital sem conectividade. As APIs são parte dessa conectividade.

Obrigado pela leitura!