Open Banking
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min de leitura
4 de fevereiro de 2022

Mudando para o Open Banking

David Roldán Martínez
Arquiteto Sênior de Soluções
Especialista em Open Banking, Open Finance, Open Data, e outros setores relacionados à Economia Aberta. Posso ajudá-lo a atingir seus objetivos comerciais avaliando seus processos e infra-estrutura de TI e orientando-o para melhorá-los e otimizá-los.
Mais sobre o autor

Os bancos tradicionais estão sofrendo pressão das partes interessadas do mercado para transferir o ownership dos dados de si mesmos para os clientes. Esta pressão depende do país ou região e, às vezes vem de reguladores (UE e Reino Unido, por exemplo), às vezes de clientes (EUA ou China, para citar alguns). Independentemente do driver, a conseqüência permanece quase a mesma: abrir os dados. Isto está promovendo novas oportunidades de negócios para os bancos e fintechs. 

Neste artigo, vamos explorar o que é Open Banking e suas implicações.

Introdução

O open banking está prestes a fornecer acesso aberto a dados bancários e financeiros de clientes de bancos e instituições financeiras não bancárias para provedores de serviços terceirizados por meio do uso intensivo de APIs. Evidentemente, os clientes precisam fornecer a permissão para que os bancos e outros provedores de serviços financeiros compartilhem as informações relacionadas à conta com plataformas de open banking.

Figura 1: Contexto do Open Banking

Espera-se que o open banking atinja um tamanho de mercado de US$ 395 bilhões até 2026, com cerca de 39 milhões de clientes em todo o mundo, como mostra a Figura 2.

Figura 2: Tamanho do mercado de Open Banking (Fonte: Penser)

O open banking tornou-se um movimento global (Figura 3), mas as jurisdições estão adotando suas próprias abordagens, as quais refletem seus respectivos mercados e objetivos políticos e, em alguns casos, desenvolvem abordagens intersetoriais que vão além dos serviços financeiros. No entanto, todas elas se enquadram em uma das duas categorias:

  • Orientado para o mercado: vários países, incluindo Índia, Japão, Cingapura e Coreia do Sul, não têm regimes de open banking formais ou obrigatórios, mas seus legisladores estão introduzindo uma série de medidas para promover e acelerar a adoção de estruturas de compartilhamento de dados no setor bancário. Os EUA também optaram por uma abordagem liderada pelo mercado, mas sem nenhuma iniciativa governamental substancial destinada a apoiar o desenvolvimento de produtos e serviços de open banking.
  • Orientado por regulamentação: a Europa foi pioneira no open banking com as iniciativas PSD2 da UE e Open Banking Standard do Reino Unido. Fora da UE, Hong Kong e Austrália podem ser duas grandes jurisdições que optaram por uma abordagem orientada por regulamentação.


Figura 3: Open Banking Adoção mundial (Fonte: Konsentus)

O open banking é identificado como um viabilizador em, pelo menos, três áreas principais em particular:

  • Melhoria da experiência do cliente
  • Lançamento de novos serviços digitais
  • Aumento da receita 

No entanto, a inovação do open banking também capitalizará novos temas emergentes em breve.  

Open Banking: uma análise SWOT

SWOT (em inglês, strengths, weaknesses, opportunities e threats) é um acrônimo para Pontos fortes, pontos fracos, oportunidades e ameaças. Uma análise SWOT é uma estratégia usada pelas empresas para a medição e a avaliação do desempenho geral delas e dos concorrentes, de maneira objetiva, para que os empresários possam tomar decisões corporativas mais inteligentes.

Para melhor esclarecer o estágio atual em que se encontra o mercado para o setor bancário, resumimos uma análise SWOT na tabela abaixo.

Tabela 1: Análise SWOT das APIs abertas (Fonte: Celent)

Pontos positivos

  1. Serviços centralizados: o open banking oferece aos bancos controle total sobre os serviços financeiros (assessoria, empréstimos, transferências e financiamentos, para citar alguns) que os clientes precisam em um único painel. Os clientes que mantêm contas em vários bancos podem usar um único TPP para acessar todas as contas e iniciar pagamentos sem a necessidade de fazer login por meio de diferentes protocolos de segurança ou copiar informações entre telas.
  2. Segurança elevada: o open banking exige que essas APIs abertas que expõem dados confidenciais atendam a diversos requisitos de segurança, de acordo com a regulamentação ou padrões de mercado. Por exemplo, no caso do PSD2 da UE, as APIs do open banking utilizam OAuth 2.0 e OpenID Connect (OIDC), que já estão estabelecidos no domínio da segurança e que são algumas das medidas tomadas para aumentar a segurança das APIs e dos dados dos clientes.
  3. Melhor experiência do cliente: praticamente todos os aspectos financeiros e bancários podem ser reprojetados graças ao open banking. Na verdade, a experiência do cliente é um dos principais beneficiários dessas mudanças, pois o open banking permite que os clientes obtenham uma experiência perfeita e simples com o seu banco, independentemente do aplicativo TPP que escolherem.
Tabela 1: Análise SWOT das APIs abertas (Fonte: Celent)

Pontos negativos

  1. Acessibilidade: a digitalização que o open banking promove para a experiência bancária tem mais probabilidade de ser adotada pelos millennials do que pelos baby boomers (veja a Figura 4).
Figura 4: Atividades de aplicativos bancários móveis para os consumidores, por geração
  1. Além disso, o fato de o open banking exigir acesso regular à Internet é uma desvantagem e não beneficia determinados usuários que não têm acesso à Internet.
  2. Enfraquecimento do relacionamento entre o banco e o cliente: como tudo é tratado digitalmente, os encontros presenciais entre o cliente e o banco estão cada vez mais reduzidos. Isso pode levar a uma ruptura no relacionamento.
  3. Baixa credibilidade junto ao cliente: embora os consumidores demonstrem interesse no open banking, eles também expressam algumas preocupações, especialmente sobre privacidade, segurança e uso de dados pessoais (veja a Figura 5). Os entrevistados apontaram o potencial roubo de identidade (69%) e o uso indevido de dados (60%) como os aspectos mais preocupantes do open banking. Enquanto isso, as preocupações financeiras, como perda monetária, tiveram uma classificação relativamente baixa (41%) (figura 5). O aumento de casos de roubo e violação de dados parece ter tornado os consumidores mais sensibilizados quanto à proteção dos dados pessoais.
Figura 5: Preocupações dos consumidores com Open Banking (fonte: Deloitte)

Oportunidades

  1. Inovações: O open banking introduz novas funções e partes interessadas no ecossistema bancário típico. Os bancos podem aproveitar ao máximo essas funções e criar novos produtos e serviços.
    Nesse contexto, os principais players são os TPPs, aos quais são confiadas as informações da conta do depositante e que transmitem as instruções relativas às transferências de fundos, e os bancos, que detêm as informações do cliente e da conta do depositante e são responsáveis pelo gerenciamento dessas informações. 
Figura 6: Open Banking Funções com PSD2 (fonte: BIP)
  1. Ofertas e descontos personalizados: com o open banking e as APIs abertas, as partes interessadas podem obter mais informações sobre os dados financeiros. Este cenário é vantajoso em diversas análises financeiras que acabarão por gerar mais oportunidades para os clientes bancários.
  2. Ecossistemas: este fator pode levar à geração de receita em vez de manter um sistema bancário central convencional.
Figura 7: Open Banking Ecossistema (fonte: The Digital Fifth)

Ameaças

  1. Monopolização: hoje, o setor bancário compreende principalmente um ou poucos bancos de grande porte que definem a dinâmica do mercado. O open banking foi lançado para tornar o setor bancário um negócio mais competitivo. Um de seus principais objetivos é oferecer uma chance compartilhada de sucesso para todos os provedores de serviços financeiros. Mesmo a mudança para o open banking ainda pode resultar no mesmo monopólio que esses bancos de grande porte mantêm e representa uma aparente ameaça no setor financeiro.
  2. Atividades fraudulentas: as instituições financeiras que compartilham dados de clientes, mesmo com meios de segurança extremos, são uma mina de ouro em potencial para fraudadores, principalmente por meio da fraude de identidade. No entanto, não se preocupe, a autenticação forte do cliente, a análise de risco de transação e as regras de fraude já estão disponíveis.
  3. Fintechs: o crescimento das empresas que substituíram os bancos é uma grande desvantagem para o open banking. O mercado de fintechs está crescendo. Os serviços que elas oferecem são diversos e cada vez mais há um grande número delas em todos os países.
Figura 8: Mercado Fintech (fonte: Data Intelo)

Estratégia de open banking: principais pontos

Todas as informações acima devem ser consideradas para estabelecer estratégias corporativas e tecnológicas ao implantar uma solução open banking (veja a Figura 9):

Figura 9: Pontos-chave em Open Banking Estratégia

1. Formulação de uma visão de API aberta: os bancos podem maximizar as marcas e bases de clientes para fazer parcerias com outras empresas e oferecer serviços inovadores. Ao traçar uma estratégia, a maioria dos bancos escolherá entre três modelos básicos de open banking, conforme mostrado na Figura 10. Todos eles podem ser combinados na estratégia geral do banco, dependendo do caso de uso corporativo.

  • Modelo agregador: os bancos vendem em nome ou em conjunto com um prestador de serviços e atuam como agentes. Um caso de uso óbvio de agregação é o provisionamento de informações de contas de várias contas bancárias.
  • Modelo distribuidor: os bancos processam o que é vendido por um fornecedor terceirizado, agindo assim como um puro prestador de serviços ou fornecedor de um produto, semelhante a um empréstimo ao consumidor de ponto de venda para eletrodomésticos. Nesse caso, o terceiro (ou seja, o varejista de eletrodomésticos) é o proprietário da interface do cliente.  
  • Modelo orquestrador: os bancos desenvolvem uma plataforma própria ou aplicativo independente com produtos ou serviços, integrando provedores e ecossistemas terceirizados nessas plataformas.  
Figura 10: Open Banking Modelos (fonte: Banking Hub)

O êxito de qualquer modelo de negócios de open banking dependerá do valor que ele oferece ou das opções de monetização que ele cria. Os participantes podem agrupar ou desagregar ofertas e serviços e gerar valor direto ou indireto. O quantum de valor gerado dependerá da proposta geral de mercado, do modelo de propriedade do cliente, do valor agregado do parceiro, da participação de risco/responsabilidade e dentre outros fatores relacionados.

2. Reprojeção de produtos e serviços: O fortalecimento de produtos e serviços bancários depende da otimização dos processos para fornecê-los. Os processos internos devem ser revistos e desenvolvidos novamente para estabelecer e maximar um modelo de API integrado. Essas iniciativas devem ser vistas como uma oportunidade para melhorar significativamente o sistema fundamental de fornecimento de produtos e serviços, bem como a qualidade do serviço.

3. Desenvolver relacionamentos entre desenvolvedores e TPPs: a concretização com êxito do open banking envolve uma excelente experiência de clientes, desenvolvedores e operações.

Figura 11: Experiências do open banking (fonte: Eric Broda)

4. Redefinição da TI como um viabilizador: a TI viabilizará tudo o que foi discutido até agora. A inteligência artificial (IA), particularmente o aprendizado de máquina (ML), está sendo amplamente usada para aprimoramentos operacionais, como concessão de crédito e recursos de controle de fraude. Enquanto isso, as interfaces de programas de aplicativos (APIs) se tornaram um elemento básico na integração de novos produtos e serviços. Da mesma forma, a adoção de nuvem e blockchain são aspectos notáveis da digitalização em andamento, à medida que os bancos modernizam todos os sistemas ao longo do ciclo monetário.

Figura 12: Tecnologias de viabilização do open banking (fonte: The American Advisory Group)

Medição do êxito: KPIs do open banking

Além da análise SWOT, antes de iniciar novos modelos de negócios, os bancos precisam medir e monitorar não apenas os indicadores-chave de desempenho (KPIs) específicos do open banking, mas também o impacto desses KPIs no desempenho do negócio em um nível superior.

A definição, o rastreamento e a medição de KPIs em cada resultado do open banking são extremamente valiosos, pois ajudam a garantir que o banco possa cumprir suas obrigações mais amplas de negócios e aquelas relativas às partes interessadas.  

A medição de KPIs não é uma tarefa fácil, pois requer o estabelecimento de recursos fundamentais em torno da prontidão operacional, tecnologia e dados que permitem que o banco aprenda e repita os resultados do KPI. Para diminuir a complexidade desta avaliação, a estrutura de KPI fornecida na Figura 13 poderá ser usada.

Figura 13: Áreas-chave que impulsionam o desempenho dos bancos por meio do open banking

A identificação e a medição de KPIs que respaldam cada um desses resultados do open banking promovem a capacidade de alcançar macro KPIs de nível superior que impulsionam o valor aos acionistas e outros valores de negócios.

Conclusões

O open banking é uma abordagem tecnológica para serviços financeiros baseada no compartilhamento de dados agregados e autenticados, acessados por meio de APIs, para consumir dados financeiros e, ao mesmo tempo, tornar as transações mais seguras.  

O open banking deve estar na vanguarda da estratégia digital dos bancos. Os dados podem ser utilizados de mais maneiras do que nunca para gerar valor para os bancos estabelecidos por meio da monetização com terceiros, da ampliação do envolvimento com os clientes via canais digitais externos e do fornecimento de uma experiência mais valiosa centrada no cliente estendendo os dados do cliente além das “paredes” da instituição. Eles podem introduzir novos fluxos de receita por meio de APIs novas e proprietárias e muito mais.  

Para os bancos que desejam acompanhar as demandas do mercado e superar os concorrentes, a mudança para a estratégia de open banking será fundamental para o êxito. 

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Referências

Obrigado pela leitura!